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Entrevista sobre o "Abate Humanitário"
Assessoria de Imprensa da Funep — (29/10/2013)


Esta entrevista com o Prof. Mateus J. R. Paranhos da Costa, professor de Etologia e Bem-Estar Animal da FCAV/Unesp de Jaboticabal, vai mostrar um pouco mais sobre o "Abate Humanitário". Doutor em Psicobiologia, ele nos conta sobre esta nova forma da produção animal, segundo os padrões impostos pelo mercado europeu para a comercialização de carne.

MF O que é o “Abate Humanitário”?
Paranhos da Costa O abate humanitário é composto pelos procedimentos preparatórios para o abate e o abate propriamente dito, assumindo-se como algo essencial o respeito para com os animais (mesmo na eminência de sua morte). Envolve a preparação do lote de animais para enviar ao abate, o transporte, a recepção e o manejo deles dentro do frigorífico, inclusive o atordoamento, que é obrigatório no abate humanitário (com exceção de abates religiosos, que tem suas regras específicas). E, por fim, o abate propriamente dito. É um processo complexo que envolve muitas ações e que tem como objetivo final o abate do animal com o mínimo de sofrimento.

MF Como fica o mercado com as novas regras europeias a respeito do bem-estar do animal de produção até o momento do abate?
Paranhos da Costa Antes de a União Europeia impor estas regras legais, empresas brasileiras já cumpriam muitas normas, pois existem padrões para a comercialização internacional. Há 10 anos, não havia nada oficial, mas existia uma pressão em torno deste tema nas relações comerciais. Entretanto, a realidade brasileira é muito complexa. Por exemplo, os frigoríficos classificados como exportadores estão preparados para lidar com esta demanda por conta das forças comerciais que já exigiam a adoção de certas condições, garantindo o compromisso com o bem-estar animal. Mas, por outro lado, temos frigoríficos menores e matadouros que atendem o mercado interno. Neste caso, ainda há muitos problemas de instalações e manejo, bem como de ordem sanitária.

MF Como vem sendo realizado o trabalho com os produtores e frigoríficos?
Paranhos da Costa Existe um movimento nacional que envolve toda a cadeia produtiva. A adesão ao conceito do “abate humanitário” é determinada pela lei, através das Instruções Normativas. Mas, se por um lado os frigoríficos exportadores não respeitarem essas regras, eles podem perder a licença para exportar e perder clientes. Por outro lado, os frigoríficos que não exportam, são menos pressionados para mudar. Assim, encontramos em nosso país situações muito boas, que respeitam os princípios de bem-estar animal e a legislação vigente e outras, que sequer respeitam as condições exigidas por lei. Embora ainda estejamos longe do que se considera ideal, é evidente que há avanços, com melhorias nas instalações, treinamento de equipes e adoção dos procedimentos de manejo humanitário. Eu diria que a grande maioria dos pequenos frigoríficos e matadouros precisa de ajuda, orientação e condições para realizar o trabalho de forma correta. Isso pode melhorar quando eles tomarem a consciência de que se desenvolverem o trabalho de forma adequada, os rendimentos serão melhores.

MF Como está à discussão da legislação brasileira diante deste tema?
Paranhos da Costa O “abate humanitário” tem uma longa história de discussão aqui no Brasil, inclusive com projetos de leis federais e estaduais. Eu diria que a discussão começa no início da década de 1990, muito antes das demandas e implicações relacionadas à importação de carne ao mercado europeu. A primeira Instrução Normativa foi escrita em uma realidade de mais de 10 anos atrás. Hoje, ela está sendo revista e ampliada. Inclusive, esta ampliação tem como objetivo atender estas normas da União Europeia, que quer comprar uma carne que seja produzida, em todos seus aspectos, com a qualidade ética envolvendo o bem-estar animal. O “abate humanitário” é uma das questões que está institucionalmente bem definida no Brasil. Em resumo, as grandes empresas estão bem avançadas. Empresas de médio porte estão avançando. E as pequenas têm uma atenção especial do Governo Federal, com programas desenvolvidos para treinar funcionários, veterinários responsáveis e alcançar a condição mínima de respeito à lei.

MF A qualidade da carne pode ser alterada em animais que passaram por problemas no campo?
Paranhos da Costa Basicamente existem três situações de maior risco. Uma decorrente da falta de cuidados ou por uso excessivo da força, causando lesões no corpo do animal. Qualquer tipo de ferimento, hematomas, cortes, fraturas, refletem negativamente na qualidade da carne. Essa seria a situação mais extrema, que pode ser chamada de “agressividade”. Existem outros tipos de acidentes, como por exemplo, um caminhão que tomba, ferindo os animais. O outro lado é quando este animal é submetido a um esforço físico intenso. Neste caso, o esforço causa alterações fisiológicas e metabólicas no animal, e como em muitos casos não há tempo para o animal se recuperar, quando é abatido, o processo de transformação de músculo em carne fica prejudicado, provocando efeitos negativos na qualidade da carne. Em suínos, por exemplo, aumenta o risco de carne PSE, que é uma carne pálida, sem cor e que libera muita água, já no caso dos bovinos aumenta o risco da carne DFD, que é escura e dura. A terceira situação negativa é o efeito relacionado com a questão ética. Somente o fato de o consumidor saber que o animal foi maltratado, ele pode rejeitar esta carne. Não está relacionado com a qualidade da carne em si, mas com os processos que o animal foi submetido. Portanto, são três situações que se não forem bem conduzidas, causam grandes prejuízos.

MF Os profissionais estão bem qualificados para atuarem com o “abate humanitário”?
Paranhos da Costa Talvez este seja um dos temas mais bem cuidados. Existem programas nacionais de qualificação ao trabalhador e de melhorias do transporte. O Ministério da Agricultura apresenta um programa nacional focado nessas questões, em parceria com a Sociedade Mundial de Proteção Animal. Há iniciativas de grandes frigoríficos que buscam a qualificação das pessoas responsáveis pelo bem-estar animal em suas organizações. Pois, a nova regra determina a formação de equipes de monitoramento e acompanhamento de toda a cadeia produtiva.

MF Como está localizada a produção de bovinos, aves e suínos no Brasil?
Paranhos da Costa A produção de suínos e aves apresenta concentração maior nos estados do Paraná e Santa Catarina, crescendo muito no estado de Mato Grosso. A concentração acontece em virtude da produção de grãos (soja e milho), que são a fonte da alimentação destes animais. Os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul lideram a produção de bovinos. Mas o Brasil como um todo, cresce. Por exemplo, alguns estados que há pouco tempo não tinham uma representatividade importante na produção de carne, hoje tem seu destaque, como é o caso do estado do Pará.

MF Você concorda que não devemos tratar os animais como um objeto, mesmo que sejam criados para serem abatidos?
Paranhos da Costa Não tenho dúvidas que devemos tratar bem um animal, mesmo sabendo que ele está a minutos de ser abatido. Esta deve ser a visão central de quem trabalha com o bem-estar animal. Os animais merecem respeito mesmo na iminência da morte. Um dos argumentos para cuidar bem dos animais seria o valor econômico. O cuidar bem dos animais traz vantagens econômicas concretas, talvez a mais evidente seja a redução de perdas com a mortalidade, tratamento de doenças ou com animais que passam por situações de alto risco de acidente. O que alertamos é que devemos tratar bem os animais, independente dos benefícios. Esta prática gera a satisfação do pessoal que está envolvido na criação, nos cuidados com os animais. Além de proporcionar uma imagem positiva, que agrada a sociedade. Ninguém gosta de ver animais sofrendo, passando por maus tratos. Este é um ponto fundamental e que muitos produtores já se convenceram disto. A questão principal é tratar bem os animais porque é bom para todos.

MF As suas considerações finais.
Paranhos da Costa Uma mensagem deve ser passada. Muitas pessoas questionam a morte. A morte não é um tema relevante para quem trabalha com o bem-estar animal. Na verdade, a morte é o final da vida e quando a gente trata do bem-estar animal, estamos falando do animal vivo. Deve-se discutir o bem-estar no momento do abate, porque até a morte, o que se espera com o “abate humanitário”, é uma morte sem sofrimento, instantânea e que minimize qualquer sofrimento que o animal venha a ter. Não é fácil acabar com o sofrimento, mas trabalhar neste sentido significa ter respeito pelos animais. Finalizo reproduzindo uma fala da Dra. Temple Grandin, professora da Universidade Estadual do Colorado (EUA), em que ela responde a uma pergunta sobre a morte dos animais assim: “todos os animais morrem, a diferença é que em alguns casos somos nós que decidimos quando alguns deles irão morrer”. Neste caso, é preciso assumir a responsabilidade de realizar o abate, de forma a evitar ou minimizar o sofrimento dos animais.

Veja também: Abate Humanitário (texto e link da matéria na íntegra, publicada na revista Unesp Ciência).



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